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Habitante Irreal

“Foi difícil pra ela se sentir à vontade diante do olhar de objeção do amigo de Paulo, ele não é diferente de outros com quem ela já se defrontou, não deveria haver surpresa, mas é tão incompatível com tudo o que ela está sentido desde que acordou pela manhã. Segura a pandorga que a incomodara tanto por sua cor quanto por estar içada, barulhenta, atrapalhando a visita ao mar desobediente, esse mar que deveria ser azul e luminoso, como os das revistas. Quando pediu para comprá-la estava determinada a quebrá-la, a dar sumiço na primeira oportunidade, mas esperou e entendeu de fato o que sentia (e o que se modificou). Paulo subirá daqui a pouco, está conversando com o seu amigo. Maína entregaria dez anos de sua vida pela linguagem deles. Por sorte há o caderno, supõe que logo haverá outro, a suposição vem com o impulso súbito de guardar a pandorga e suportar o seu bordô. Tira a roupa, pega a caixa-balde de peças Lego Creative Building descoberta de relance embaixo da cama essa tarde quando procuravam o lençol, e, enquanto espera, monta dois bonecos (brincará com eles até Paulo entrar no quarto, talvez influenciado pelo amigo e sem saber o que dizer àquela menina distraída com cubos de plástico sobre a cama). Em suas mãos, os bonecos vivem sua vida minúscula. A boneca sabe voar, o boneco não, mas ele canta pra ela (com a voz de Maína) enquanto vivem sua história de Legos sobre o colchão onde o lençol ainda não foi estendido. Os minutos passam e os dois se aquietam, a boneca aterrissa, convida-o para sentar um ao lado do outro sobre a espuma, ele deita a cabeça de plástico sobre o seu colo de plástico, pede sua mão em casamento e chora.” pag. 61,62.

“Os que estão na calçada em frente ao prédio se posicionaramdo outro lado da rua no passeio da Trafalgar Square. O jovem negro vestindo a camisa branca abotoada até a gola e segurando o microfone se vira na direção da embaixada e diz: “Nelson Mandela ainda está preso, mas será por pouco tempo.” As pessoas aplaudem. Paulo as acompanha já sentindo os efeitos do vinho tomado às pressas no Pelicano. Aquilo lhe parece surreal de tão explícitas as demonstrações de crença na possibilidade de Mandela ser solto sem barganhas antes de vir a falecer. Não é , pra ele, uma questão de testemunhar o que possivelmente seja parte de um processo histórico importante; está ali por curiosidade. Por sinal, mentiu que estava a turismo e não ficaria mais do que vinte dias no Reino Unido quando foi entrevistado no balcão de imigração, fez isso por curiosidade. Bebe com gente desconhecida, alguns até mais jovens que ele, gente vinda de todas as partes do mundo, faz isso por curiosidade. Bebe até as coisas ficarem perigosas, por curiosidade.  Anda com gente rica e mimada, com turcos que jogam futebol no Hyde Park nos finais de semana, caras que soltam a franga por estarem em Londres e se tornam as esposas prendadas de outros caras que fazem questão de reclamar maliciosamente e contar pros amigos que as esposas prendadas não sabem cozinhar direito e não engolem o esperma quando chupam seus pauzões, com casais de ilha da madeira e seu português impossível de entender, faz tudo isso por curiosidade. Caminha sozinho de madrugada do Centro até o norte, em Willesden Green, depois de largar as garçonetes irlandesas, polacas, jamaicanas, que vem tentando namorar, nem que seja por uma semana, dormindo todas as noites nas casas delas, faz por curiosidade. Entra na Stanford’s a melhor loja de cartografia do mundo segundo alguns, e fica olhando os mapas enormes que eles emolduram nas paredes, especialmente aquele em que a ilustração traz o hemisfério sul na parte superior do mapa-múndi, por curiosidade. Curiosidade, só curiosidade, a curiosidade é o novo agora nada importa mané e pode mandar todos pro inferno que estou cagando e andando e quero ver essa porra pegar fogo duma vez” pag. 91

Paulo Scott- Habitante Irreal

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Miles Davis rehearsing backstage at the Chicago Civic Opera House, 1956  |  Photographed by Michael Ochs

Miles Davis rehearsing backstage at the Chicago Civic Opera House, 1956  |  Photographed by Michael Ochs

(Source: inritus, via kidsattheriot)

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(via steffums)

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(Source: umamulherzinha)

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Honra-me com teus nadas.
Traduz meu passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome,
Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames, desnudo até o osso
Igual a um morto.

Hilda Hilst

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“A paz que você procura está no silêncio que você não faz.”

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"Em geral, o que se passava de mais importante comigo acontecia em silêncio. Quando criança, costumava ficar imóvel, concentrada no ruído que meus ossos emitiam ao crescer. Era inconcebível que isso acontecesse sem outro aviso que o dos sapatos, de um dia para o outro expulsos dos pés. Uma coisa importante assim devia vir precedida de uma notificação para que a gente pudesse tomar providências, agir da maneira correta. Ainda hoje parece-me malicioso que o sentido de tudo se revele somente depois, quando não há nada a fazer senão aceitar o novo tamanho e descobrir um lugar onde se caiba. Nisso os sapatos e a consciência se parecem: só quando apertam é que sabemos."

Adriana Lunardi, A vendedora de fósforos, p.62 (via ranchocarne)

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´Edgar Allan Poe (right), who spent time at the Academy doing research on mollusks; Joseph Leidy, a young medical student (center); and Samuel George Morton (left in top hat) were photographed in the Academy’s new building at Board and Sansom Streets during the winter of 1842-43. This daguerrotype, possibly by Paul Beck Goddard, is the oldest-known photograph of an American museum interior.´ (via Brainpickings)

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´Edgar Allan Poe (right), who spent time at the Academy doing research on mollusks; Joseph Leidy, a young medical student (center); and Samuel George Morton (left in top hat) were photographed in the Academy’s new building at Board and Sansom Streets during the winter of 1842-43. This daguerrotype, possibly by Paul Beck Goddard, is the oldest-known photograph of an American museum interior.´ (via Brainpickings)

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Uma definição de romantismo

Michel Laub

Teixeira Coelho no posfácio de A obra-prima ignorada, de Balzac (Comunique, 141 págs.):

“Dedicação a um ideal pelo qual vale a pena sacrificar o que se tem ou é; decisão de não negociar com o que se opuser a essa busca; desinteresse pela felicidade: o anseio é por outra coisa; indiferença diante dos padrões formatadores da sociedade e dos códigos todos; independência frente ao poder, desprezo pelo senso comum; decisão de lutar incessantemente pelo que importa, capacidade de suportar o martírio; opção pela minoria não pela maioria, idealismo em seu sentido mais comum; uma convicção interna que não cede aos argumentos banais, nem aos mais fortes (…), mesmo diante da acusação mais terrível: a de que essa convicção é loucura; uma das hastes leves do frágil tripé romantismo-revolta-revolução; desejo de romper os limites estreitos da individualidade e do aqui-agora e expandir-se infinitamente e o contrário disso também: esgotar-se no aqui-agora, em si mesmo ou no grupo; a inexprimível delícia de brincar com a própria alma; ou de esquecê-la totalmente; energia vital mas também auto-aniquilamento, suicídio, dandismo, exibicionismo, excentricidade, tédio, a morte na alma, o sursis, visões diabólicas, visões divinas, fidelidade ao detalhe tanto quanto a busca do oceânico indiferenciado; opacidade e obscurecimento como também deslumbramento; esquerda e direita; não aceitação do conhecimento como virtude, a criação de valores no lugar do estudo dos valores, a criação a partir do nada; operar sabendo que não existe o objeto, apenas o sujeito; o marginal, o exilado, o super-homem, a autenticidade existencialista, a certeza de que nada existe no mundo que possa amparar você e que você é responsável por tudo o que é ou possa ser e fazer; a recusa de uma estrutura metafísica para o universo, e o inverso; o mergulho no místico; o vazio como o grande dado, portanto a valoração do aqui-agora; a certeza de que os valores são muitos e incompatíveis; a noção de pluralidade e diversidade; o liberalismo; a recusa das teorias explicativas perfeitas e incontestáveis, recusa do determinismo, da razão da história; a certeza de imprevisibilidade do comportamento humano, tudo isso e muito do que contraria tudo isso cabe na forma do romantismo, ao lado e por cima dos valores românticos banalmente descritos nos manuais de arte e literatura. Na opção por um resumo da essência do romantismo avançada por Isaiah Berlin, (…) é a vontade de fazer e a afirmação de que não existe uma estrutura imutável das coisas, e que portanto é possível com elas fazer o que se decidir, quase; no mínimo, a certeza de que vale a pena tentar. A vontade e o homem como atividade (Lenz: é preciso agir, agir sempre), isso é o romantismo (…). Numa outra versão (…), é o reconhecimento e a convocação da vontade (as teorias formatadoras, unitaristas e integradoras convergentes, quase todas fundamentalistas, chamam a isso voluntarismo). Desdobrando desempacotando cultivando a vontade (que nos termos de hoje se poderia traduzir por exercer a escolha), romantismo é o homem como atividade continuamente se criando e recriando e não tão preocupado assim com a identidade, com sua identidade, ao contrário do que aparece descrito nas versões rudimentares do romantismo ou como aparece nos romantismos rudimentares e nas versões rudimentares das interpretações do romantismo. Homem não preocupado com isso porque sabe que a única coisa que existe e a única coisa que conta é o movimento. Essa é a sua autenticidade – que custa alcançar, custa enormemente a alcançar, num esforço diante do qual habitualmente se costuma considerar que é melhor entrar num compromisso: acertar um compromisso com a própria vontade, com a própria vida, com o costume; e ceder. O romantismo como atitude não simbólica, quer dizer não normativa, não generalizante e não abstrata; e atitude tampouco baseada no pragmatismo embora atitude que possa ter o pragmatismo como fim; o romantismo, antes, como atitude abdutiva diante da vida e do mundo, uma atitude tipo pode ser, atitude icônica. Atitude mágica, no limite, caso se prefira que a palavra seja pronunciada – porque essa é a atitude da arte.”

Por Michel Laub em http://michellaub.wordpress.com/2012/03/12/uma-definicao-de-romantismo/

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panelas para solteiros

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montamos nossa bela vista para o mar durante o suor
de pessoas que correm a maratona de nova iorque pela tv
esperar que sorria e venha me beijar quando chega
em silêncio do lugar onde teima em continuar trabalhando
se tornou a pior censura e a prova de que pode ser
conveniente se tornar aos poucos uma pessoa amarga

não foi o erro na única noite em que não podíamos errar
foi apenas essa tua escolha de viver no futuro e depois
não saber quando as palavras importam ou não
hoje sei o quanto o meu silêncio e a minha ausência
podem ser o melhor presente que tenho para te dar :
posso ser triste (só não posso ser triste ao teu lado)

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Paulo Scott